quinta-feira, 7 de julho de 2011

Futilidade itinerante


Vermelhos errantes
___suicidam o poeta
Ah! A sinestesia, que experiência concreta!
Os gritos surdos em sinfonia
___queimam a árida e lenta agonia
___dos suspiros latejantes que ele interpreta.

E os veleiros oscilantes sussurram a dor do profeta
Que pisa cortante sobre mares de lágrimas,
___ Ácidas e verdejantes,
___ singelas como diamantes.

Mas a dúvida segue e se alastra e me infeta
___Será doce a letargia?
___ O que torna, afinal, a vida completa?
me será fatal a hipocondria?
___ Essa elegia aos amantes?
___ O naufrágio do amor e dos [seus] tripulantes?
Ou então o ar que a seringa injeta,
me será o ardil dos últimos instantes?

Tanto faz. A vida está de morte repleta.

(2010).

Soneto ecumênico


Cordeiro de Deus,
deixai o pecado no mundo.
Afinal, o brilho do breu
é veloz, audaz e fecundo.

E floresce no lar dos ateus
o veneno que a cada segundo
corrói o Rei dos judeus
e nasce de um ódio profundo.

Até o último adeus
padeceu neste chão imundo,
pois a chama da fé se apagou e morreu

e jaz numa vala ao fundo
e a triste sina dos hebreus
se tornou negar a vida de um moribundo.

(2011).

Maioridade


Ontem eras uma menina;
hoje és uma senhora
Teu sorriso doce de libertina
pelo tempo então se enamora
e deixa em ti, bela colombina,
a ciranda embriagante das horas.
A maturidade que vem paulatina
te trará o vigor da melhora...
Até que a fiandeira mais assassina
te corte o fio da vida fora.

(2010).

Anêmico

O mundo adoece
na embriagada procura
e sem cura permanece
afogado na loucura.

Infeccionada a sua chaga cresce
e, maculada pelo amor,
regurgita o que apodrece.

E o Amor, letal e epidêmico,
causa, nessa queda escura,
a dependência do arsênico.

(2010).

Vossa alteza,


Neste aniversário ainda juvenil,
lhe será a alegria a maior riqueza,
pois, perante as dores deste mundo muito hostil,
é ainda o amor sua grande defesa;
não tema, pois, os barulhos de fuzil:
suas virtudes a revestem de grandeza,
criam, assim, uma bruma azul, anil,
mais forte que qualquer fortaleza.
Dispa-se das lágrimas e da incerteza,
pois um destino farto a aguarda gentil
basta senti-lo nos caminhos da pureza,
e encontrá-lo depois do tempo, depois de abril,
envolto num céu turquesa
e enlaçado por um riso sutil:
o presente futuro da natureza
lhe coroa com uma brisa primaveril
que traz num bucólico aroma de framboesa
as posses do reino do tempo, dos reinos de abril...
virão estas e outras, surpresas mil
para lhe restituir a realeza,
a realeza de uma princesa febril.

(2010).

365º


O tempo passa, o tempo arde
Goteja quente a maturidade
sobre o frescor pueril que deixa saudade...
Mas deixa o futuro para mais tarde,
Vive o tempo do agora, o instante da vontade
Esquece as chagas da carne
e cria na alma a tua idade.

(2010).

Pirofagia


A vida desperdiçada
É vista da janela
Caminham os soldados
E ecoa o choro na favela.
Cidade tão amada
Tem seus gritos calados,
Lamenta o sentinela.
Em sangue embebida,
Dela voam os sonhos alados,
A paz desejada nas rubras capelas.
Mas virá uma bala perdida
E arrancará toda a vida que há nelas.
E a fé aonde anda? Caída?
E a Nossa Senhora? (Des)aparecida?
Teria se esquecido dos pregos tantos que a violência martela?

(2010).

Primavera


Passam-se os dias, passam-se os anos;
a liberdade, antes desejada, agora te encarcera.
Mesmo depois de tantos enganos,
Continua tua moral austera?
Te desejo, antes de tudo, muitos planos
E um vigor tal que regenera....
Que venha das perdas e danos
Uma luz doce e sincera
Que transforme teus caminhos insanos
Numa onírica quimera.
E que seu lado mais humano
Dilacere a sua última fera.
E que neste enterro do profano,
Seja dado início a uma nova era.

(2010).

Oscilação verdejante


Caminho itinerante
beirando os rios e o desatino
à procura de gemas: ouro e diamante
uma luz reluzente no final de seu destino.

O seu coração bate distante,
no nascer do ribeirinho
O seu nome, bandeirante,
esconde o seu sangue, assassino.

Fez da mata sua amante,
desvirginou-a sem carinho
Os seus passos inconstantes
marcaram na relva seu caminho.

Botas inventadas sobre um futuro retirante...
É anunciado um mito guerreiro:
o fatigado povo brasileiro; heróico retumbante,
que rasteja preguiçoso, sem sequer um diamante.

(2010).

Vermelho


Caminha distante o nordestino...
O passo inconstante, tal qual seu destino...
Corre seco o sangue desde menino.
A sua cabeça arde, começa o desatino:

Vê no chão o céu, que sorri sem esperança;
Vê o Sol pequeno, o Sol criança...
Aquele delírio louco é de Deus cruel vingança.

(2010).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O último algoz


O amor me amarra sem ternura,
Me prende em suas jaulas, grilhões e nós
Maldita doença sem cura,
Que me profetiza um fim veloz...
O abandono da clausura, a falta de procura,
A dança dos ebós.

Sufoco calado num suspiro feroz...
Que triste desventura
Desejar uma única e singela criatura
Para com ela ficar eternamente a sós.

(2010).

Arame Farpado


lado a lado,
marcha o soldado;
o choro engolido,
o suspiro calado.

falanges assassinas,
o olhar desalmado.
eis a obra dessa sede sovina
que cria demônios alados...

mas há de chegar o dia
em que cesse o fogo cruzado;
e virá junto ao Sol a alegria
do último beijo roubado.

(2010).

Fugaz


Esse perfume de ametista
me atiça um pouco mais;
Rasga meu delírio simbolista,
me queima e me putrefaz.

Embriagado, o Amor é um equilibrista
que se arrisca por demais...
E ainda, audaz, finge que é artista,
pensando que me satisfaz.

(2010).

Solidão


Gangrena apodrecido o meu coração
Poderia ter sido feliz, mas não
Caí nos vícios da vida,
Caí no chão.

Matei minha fome,
Matei minha sede,
Matei meu irmão.

Agora aguardo o castigo,
Aguardo perdido.
Aguardo o então.
Aguardo caído,
O último grito da infecção.

(2010).

Elegia Fatal


Há no grotesco uma estética
alimentada pela ressaca moral
Neste mundo artificial, a felicidade elétrica
brinda a todos com seu ode ao banal
e morre a poesia,
morre a métrica
e enterram minh’alma no
mesmo funeral

A beleza de hoje é bélica
Quão sublime é dizimar o igual.

(2010).

Sanatório


Quero paz no meu velório:
aquilo que não tive em vida;
um fim cinzento, e talvez simplório
uma pedra vil sobre a existência perdida.

A vida – e o sangue – em minhas carnes esvaída
mancha de rubro vermelho o céu, o anil
minh’alma oscila na última despedida
e meu corpo gelado arde febril.

Eu, que tive em vida em rancor compulsório,
em morte agonizo, angustiado e sem saída.
Não mais respiro, asfixiado pela moral adormecida,
pois já me era certo o inferno ou o purgatório.

Agradeço pelo piedoso gesto notório:
Dispensaram-me de outro fogo: o do crematório
e me deram fim ainda mais inglório
a degradante eternidade e a constante falta de vontade.

Ah! Como o fim é ilusório!

A minha vida de pecados, profana e proibida,
é agora devorada pelos vermes e corrompida;
Anunciam as traças sem grande dom oratório,
o alívio final da dor interrompida.

(2010).

fleur-de-lis


Seja como for,
ainda serás uma qualquer.
Carregado de torpor
esse riso falso de mulher
finge que sente amor,
esteja com quem estiver...

Mas não sucumbirei ao teu calor,
venha ele donde vier...
Pois teu amor eu mesmo nunca quis,
nem nada do que me der;

Me espanta, contudo, teu talento de atriz:
As tuas lágrimas derradeiras
até parecem verdadeiras
para uma dissimulada meretriz.

(2010).

Nostalgia doente


Encurte a vida, não prolongue a estadia.
Não espere o convite da serpente,
não aumente a agonia
Sinta o veneno da maçã nos dentes
e a profusão da letargia...

Se sentirá, por certo, menos carente
na companhia da morte e da histeria.

Não me diga que não tem coragem de apertar o gatilho,
ao menos tente.
Garanto que se irá a fobia
e lhe será o ódio mais gentil e sorridente
E quando cair no chão, em desespero,
começará, enfim, a vomitar poesia.
E a lembrança deste mundo demente
parecerá mera fantasia.

(2010).

Verdade


Não há vida sem vontade,
nem suspiro sem saudade...
Mas é tudo ilusão,
pois nada sobra senão maldade...

Nos matemos então!
E nos despediremos
deste mundo de perversidade....
Anda, por que não?

(2010).

Incompleto


Amor, que demente
Não ri, só me mostra os dentes
A alma sorri contente,
Mas não sentira a mordida,
Ferida de serpente...
Arte, bendita doença!
Ensandece os sãos,
Combate a descrença
Ainda assim, desperta a apatia.
Paro agora o poema,
Chega de vomitar poesia.

(2010).

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Indiferença homicida


Demente megera, corre imprudente;
gira, delira e espera.
O sangue ferve, ela não vê saída
e cede ao desejo latente
de acabar com a própria vida.

As últimas palavras: a grande lira,
Embora a entoe, não mais respira.

Canta mentiras sinceras,
agoniza e mostra os dentes
Tem no corpo chagas e crateras:
tanto a carne quanto a alma estão doentes.

Percebe, mas disfarça, arrependida,
e finge um sorriso de serpente.

Com a boca cravejada de safiras,
a primavera ela espera paciente
E então as lapida,
realizando um sonho indecente:
o de ser permanente a dor de sua mordida
e ter na morte a maior cliente.

(2010).

Última elegia

Foram-se as ninfas, as musas
Sobraram as palavras, rotas e sujas
Outrora vieste com zelo, agora me abusas
Maldita a tua cruel mania:
Rouba-me o ar e a poesia.

Sufoco-me nesse sarapatel, infame agonia
Por um verso puro até me mataria
Mas nada vem a mim dos céus
E perco-me imundo nesse mundaréu
sem um momento sequer de epifania.
(2010).

Labirinto do agora


Meu coração anda faminto,
mas és tu que me devoras...
Pela força do instinto,
da minha culpa te enamoras.
É triste o fim que eu pressinto.
Gotejam quentes as horas,
enquanto digo que te amo e
dissimuladamente minto,
Ainda te iludem as esperanças de melhora?

Esqueça!
Não tenho moral, eu admito...
Acreditas em mim, minha senhora?
Vai, voa longe, até o infinito,
até o último borrão inaudito de aurora...
O teu destino paira lá, manuscrito.
Agarra-o e corta teu coração fora.

(2010).

Intensa


Minha alma caminha suspensa
Longe da vida, da saudade,
Não que ela me pertença,
É fruto da vontade
Daquela que já morreu
Infectada pela calamidade
De amar aquilo que já não é mais seu
Perdeu-se, por isso, na descrença
Castigada pelo ódio e pela ofensa
Vencida pela triste maldade
Por tudo que nunca aconteceu
Não me entregarei jamais ao Amor: essa infeliz doença
Nunca acometerá este coração que já apodreceu.

(2010).

Vingança


Chega o baile da morte
E começa a matança
Quando me dou por mim,
Já é a última dança
Me leve, por fim,
Já não sou mais criança.
Sofro sem o seu ódio de marfim
Me perturbando a lembrança.

(2010).

Temeridade


Falta em ti humanidade...
Será teu amor um arpão
e teu ódio saudade?
Talvez seja tudo (des)ilusão
e teu carinho, caridade!
E teus beijos, o que são?
Gritos mudos de vontade?

(2010).

Mensagem à poesia


Inconsequente e louca,
Ela vem e me beija na boca,
Com a carne quente e a cabeça oca
Pisa no meu peito, mas a tortura é pouca.

Corre e para; gira e respira
Ela me tem na mira
Se descontrola e atira,
Mas larga a arma e então suspira

Maluca,
Me encara com os dois olhos na nuca
Aperta e machuca

Então ela para,
Se lembra da labuta
E vira mariposa, vira prostituta
Desmaia em meus braços
E finge que é astuta.

Acorda! Ainda resta libido
Acorda o profano, o pensamento indevido
Me sufoca a alma, me mata com calma.
Tanto faz: meu coração já se foi perdido.

(2010).

Ardilosa


Caio a ti, de joelhos
Imunda e santa, cigana;
Imaculada e leviana.

Teus olhos sujos e vermelhos
Refletem o caos da vida urbana,
Do agora, do momento.
Da tua carne venenosa:
Do meu maior lamento,
Que permaneças saborosa
Até o último sacramento.

(2010).

Rosa branca e romã


Teu corpo contorcido em agonia
Exala a mais sutil e doce melodia
Vem do tinto do sangue uma luz que irradia
As pernas dormentes, os braços suicidas,
MALDITA E PROFANA MINHA FANTASIA.
A dor nos teus olhos, a vitória da apatia
De tão mórbido, o teu encanto me arrebata, me anestesia.

(2010).

Gabriel



A vida passa, mas o tempo fica
Imita e pica, dissimulado,
Ardente como cascavel
Mas fuja desse insano sarapatel:
___O tempo bestifica
___Acorrenta todos num maldito carrossel

E o arcanjo que caiu do céu
Está perdido no tempo, no espaço,
___No último mausoléu
Alimentado pelas ilusões remendadas,
___Pelos sonhos de mel,
Gozo que o destino recebe e adocica
___Enquanto pisoteia o fel

Antes da mão que crucifica,
Perceba que o tempo é infiel,
Se refugia então na morte,
___No maior laurel
Na última prosa, no ponto final
No tormento que a vida versifica,
___No demente fogaréu.

Percebe, por isso, Gabriel,
Que é melhor voltar ao céu...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Maldição


Já tenho os pregos, falta o martelo
Não será necessário nenhum feitiço,
Pois serás enfim meu amargo flagelo

E o desespero que te fez mais submisso
Alimenta a dor que te torna mais belo

Finalmente, tua vida então eu desperdiço
Mas haverá, entre nós, o sangue como elo
Será a morte a profecia que hoje eu selo.

(2010).

Mentira


Minha pele aproxima-se da tua por instinto
Talvez meu corpo esteja de calor faminto
Porque, em verdade, por ti nada sinto
Mesmo assim, tudo faria por um trago do teu absinto
Mas, se digo que te amo, então minto.

(2010).

Indecisão


O que há do outro lado do espelho?
Não sei.
Por isso mergulho no vazio no vermelho
Um véu sangrento que me enche de carinho
Um calor afiado que queima como espinho
Uma fuga delirante que foge comigo
Das correntes do tédio e da insensatez do destino
Intermédio dos meus passos, reaviva o que persigo
O remédio contra o tempo e o prazer paulatino
Diversão de libertino que perece sobre a alma
Apodrece a moral, alucina e acalma,
Perfura a carne numa agonia lancinante
Que esconde em si um sorriso de amante.


(2010).

Tentação


Teu corpo muito me custa,
Mas somente teu sangue me satisfaz
Teu olhar afiado, tua sede voraz
A dor que exala da tua carne robusta
As lembranças decadentes que teu ventre traz
E os grotescos espetáculos que nele se faz
Augusta, Augusta, Augusta,
Ainda sinto teu perfume de aguarrás.

(2010).

Verbete


Gosto anil o que perfuma o clarinete
bala de fuzil, amarga fobia do cadete,
refém da morte, vítima, banquete
Entoa, estrangulado, a sinfonia do porrete.

(2010).

Metalinguagem


A rima enche-me de agonia
De ser poeta, arrasta a fantasia
Crime contra as letras, profana covardia.

Ode aos filhos dos ventos
Súplicas à letargia
Fogem da ira os intentos
Intentos cruéis de morte à poesia.

(2010).

Vertigem


Aqueles rios secos encharcam
sua pele curtida
Filha amarga do destino,
Pobre velha sofrida

A boca seca,
As mãos calejadas, doloridas
Sinais que confessam
Suas rezas sussurradas e tremidas
ajoelhadas ao badalar dos sinos
Desesperadas,
desmedidas.

(2010).

Orpheu


Ser moderno é ser plural;
pintar sobre as regras,
se libertar do igual.
Bater e espancar a moral.

Mas, para se valer do choque,
entoa-se a poética tradicional
Entrarão, pois, os modernistas
em sangrento luto matrimonial.

(2010).

Saudade


O que é modernidade?
Nada, nada que não ilusão,
pois o homem é, na verdade,
um animal, seduzido pela tentação
de inventar a humanidade
na ciranda da civilização.

(2010).

Dialética


Esta é a rua por que passo
Mas, por que passo?
Passo porque fujo.
Fujo porque preciso.
Por quê?
Não sei.

(2010).

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ironia


Há algo, não sei, no seu andar
Talvez sejam os seus passos ritmados
Fortes como os de um militar
Ou então os quadris armados
Está sempre prestes a matar
Até seus dentes parecem mais afiados,
Mas não deve ser nada,
Só o Amor no meu olhar.

(2010).

Digressão confessional


Escobar, meu caro amigo,
Há em nossa afetividade
Um iminente perigo
Que, de tão intenso,
Desobedece à nossa vontade

Meu sangue, pois, congela
Pelos pecados do excesso
Calo os sinos da capela
Não tenho alma, confesso

Mas venha a mim, eterno comborço
Ama-me sincero, sem esforço
Pousa em mim teu olhar demorado, inconstante
Deita sobre minha pele lânguida teu corpo fumegante

Oh flor do céu! Oh flor cândida e pura
Para este mal não há nenhuma cura
Estou fadado aos teus braços, à morte escura
Teu toque é em mim ferida de navalha
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

(2010)

Dois anos


Do tempo, é grande a fuga
As veias da vida, a ampulheta suga
Serão as maldades muitas e mansas
É dado o bendito fim às malditas crianças.

(2010).

domingo, 27 de março de 2011

Carolina


Sê com o tempo paciente
Ele vem feroz e desatina
Mas de ti não levará o que é permanente
Tua jovialidade de menina

Verás então porque o tempo é tão fremente
Inveja, enraivecido, tua beleza assassina
Que aniquila, das almas, irreverente
A latente e doce toxina

É, contudo, teu andar de bailarina
que transforma a dor de um coração doente
no mais tenro ingrediente
da tua sede leonina.

Anuncias feliz e inconsequente,
Com teus olhos de Capitolina,
A ressaca do mar e a enchente,
Olhar que afoga e ilumina

Encaras o céu no mar e fazes, repentina
Da lua teu pingente
Descerá, hoje, do céu, uma estrela peregrina
Para entregar-te o presente

Carolina,
Que seja eternamente
Suspiro adolescente
Sorriso que fascina.

(2010).

Efemeridade


As gotas da morte
pingam na carne
como choro de vela
um suspiro cortante
que queima e espera

O uivar da não existência
um vazio entediado, constante
desesperado por sua decadência
seu calor gelado de amante.

(2010).

Por que te preocupas?


Arranca-me da dor um suspiro,
mas do ódio eu não esqueço
Desatinado, na cama, reviro,
pois sei que nada de bem eu mereço

Então, por que te preocupas?

Tua febre desvairada já te ocupas
De nada da sorte tenho eu culpa
Devo ser, seria eu alucinação febril,
demente e infantil da tua mente
calada, carente? Desejo inconsciente?
Pecado ardente, servil.

Profecia sanguinária de uma cigana vidente,
Que me encara pelas mãos e ri contente
Arrancando da minha alma pensamentos sãos e decadentes.

Afinal, por que te preocupas?
Eu sou o mal
E serei contigo inconsequente.

(2010).

Sacristia


Rezo, mas apago o cigarro na cruz
O perfume amargo da madeira me seduz
Creio, mas agarro o profano, o pecado
que sacia minha sede de alcaçuz

Não há fé verdadeira; o sagrado envenena
A decadência tanto putrefaz que reluz

Desgraça derradeira
Deus está morto; não existe Jesus
Não encontrarei jamais a maldita luz.

(2010).

Tremor


Ah, já escorreu de mim todo o amor
Foram muitas e cálidas as flechadas
Que mutilaram meu corpo pecador
Não peço, contudo, pena de Nosso Senhor
Peço somente uma ultima amada
Que, mesmo pálida e maculada,
Cesse em mim meu divino impulso matador.

(2010).

Languidez


Sua pele alva envolve e arrebata
Sorriso de anis, de tão doce mata
Esfinge meretriz, sua sede é ingrata
Devora o sol e o cassis,
Arranca sangue da chibata.

(2010).

Clamor


Amores e vidas, sonhos tantos
ilusões que fingem dissimuladas
os mais terríveis encantos
as vendas, dores aladas envoltas em prantos
mantos da morte, do corte da vida,
dos malditos (e) santos;
Ode aos poetas mortos,
aos filhos do Amor a quem canto.

(2010).