segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


A luz da vida
Queima a alma
Mata o calor
Esquenta e salva
Esquenta
Fere a dor
e os vícios alimenta.

(2010)

Desgosto

O amargor impregnado na minha boca
tem o gosto suave do fracasso
dos caminhos farpados por onde passo
do meu sangue agonizante, agora escasso

Para livrar-me do ardor que me persegue as entranhas
As mágoas do vazio eu invento
Forjo minha falta de sentimento
Costuro os gritos e lamento
Minhas dores tamanhas,
abandonadas ao relento.

(2010)

Maternidade


Corre, corre o veneno
pelas tuas veias de citrino
mata, sufoca, sangra o menino

Amarga-te pela dor do pequeno
Estrangula o ardor do conhaque
Arremessa a carne infantil ao noturno

Vive tua vingança
Desperta teu ódio soturno
e assassina a criança.

(2010)

Fartura

Vem do Sol uma voz escura
desesperada, voraz
Convida-me à ventura
Aceito de pronto,
já sinto as fervuras
do túmulo fugaz
faminto pela minha
carne e suas nervuras
que, de ceia, as faz
Arrancando-me as mais
doces torturas.

(2010)

Corrosão

Sou um canalha,
não tenho alma
Nada me salva

Só me resta uma mortalha
sobre a qual me contorço. Pequeno,
como um feto em ventre materno
Sedento por veneno
Sozinho na relva.

(2010)

Anil


Ah, da felicidade tenho alergia,
Essa coisa vil
que como praga contagia
Quisera eu tecer uma doce sinfonia
que a matasse aos poucos,
Lentamente em letargia.

(2010)

Anoitecer


Cai o Sol
Se desfaz em plumas
E a tarde se acostuma
com o calor da bruma

O brilho que exuma
e jorra sobre as viúvas,
florescem, então, férteis algumas
e o vigor da maturidade perfuma
as estrelas e a lua, uma a uma.

Nada sobra, em suma
sem o frescor do vulgar que defuma
as pobres almas que vagam
em busca de um amor que as consuma.

(2010)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sinfonia


A força da mordida era de adeus
As carnes são minhas, os horrores teus
Deixa escorrer o sangue nas ventanias
Rasga o véu das alegrias
Lamenta, despenca em melancolia.
Abre-te o peito; conseguirias?
Solta a morte, pratica a sinestesia
Encontrarás, por fim, o amor à poesia.

(2010)

Felicidade


Peço um lugar no purgatório.
Minhas mãos já caíram,
E os pregos ficaram.

Mergulhei num mar de breu
E tive, de repente, uma
sede insana de escuridão,
premeditada, profana;
Por isso morri:
afogado em solidão.

(2010)

Veraneio


A manhã acorda preguiçosa com teu olhar encantado,
Abençoado, entornado de gris.
Teu brilho sussurrado,
Esconde o pecado, o desejo iluminado,
Esmaltado por cassis.

Floresce no fervor da alma, na inquietude da calma,
Um pedaço de anis,
Um coração indomado,
Aveludado como flor-de-lis .

Andar avermelhado que corre e me diz
Como desperta – embriagado – o sorriso dos gentis
Teu toque eterno, enamorado,
Veraneio de perdiz.

(2010)

Espelho

A minha mente sente,
mas não sente,
mente.
Mente porque não sente.

Engana como a gema reluzente
Trapaceia, rodeia, em qualquer vertente
É o nascer do sol poente
Um rio morto, sem nascente,
com as pontas dos dedos dormentes
imersas em breu

Já que nada mais é seu,
O horizonte partiu,
morreu.

(2010)

Sistema


Estará o segredo da vida
No som, na luz, no mar, no vento?
Vivo, procuro, sonho e tento.

Mas não há vida nem sonho, afinal
Segredo velado no choro da vela; lamento
que senta, reza e espera
canta, proclama e chama dos pecados o capital.

A chama incendeia e ensandece
Vem e desaparece
Já nasce morta a rotina, a epopéia do banal
pois não existe tempo,
muito menos do começo, o final.

(2010)

Das desgraças, a novena


O amor inventado
as farsas encena,
Não há tortura maior,
o coração apodrece e gangrena.

O vício regenerado
não seca o pranto dos santos
Que pena!
A queda da fantasia
só aumenta aquela sede obscena.

As asas quebradas, perdidos os encantos
A fé adoece, a ordem desordena
Ressuscita a esfinge, a renda
As injustiças, uma centena.

O sangue ferve, envenena
Dos pecados os terrenos,
A morte dos pequenos
O sonho amargado
O levantar do cajado.

(2010)

Confissão


Sequestrada, minha alma
agoniza sem saída
Crente de que nunca será salva,
chora, desesperada,
desmedida.

(2010)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Choro de pantera


Por que chora, se é fera?
Por que mata, se venera?

Sua agonia é grande,
impera
Corrói a virtude,
degenera
Liberta o fogo,
encarcera.

Anda, se regenera,
se espreguiça, chama a primavera!
Canta dos fados o mais sincero
Não navegue nos enganos que supusera
Cale-se! A raiva vocifera
Não é nada, senão uma quimera.

(2010)

Amor de compor



Que farias para vermes?
Enfrentarias a morte? A dor? A sorte?
Conquistarias o sul? O norte?
De nada adiantaria...
Não tens porte!

Não me terás nunca,
nem que te empacotes
com um belo laçarote.

Sou do fim o sacerdote,
O verme, que do cadáver devora
sua glote.

(2010)

Tapeçaria


No tear das viúvas
o labor é doentio
Em suas mãos,
o sangue das chuvas,
As gotas com as quais me delicio.

Lá desembarcam os corvos
ao gemer dos violinos
Alvorecem no solstício estorvos
e só restam desatinos.

Despertam, então, as delirantes agulhas,
Perfurando, invadindo, dançando por entre as entranhas
Avançam na carne, penetram a alma, soltam fagulhas.
Sobra sacrifício, morre a façanha.

(2010)

O tempo dos percevejos



Maldita a carne
que escapa da sua alma,
Andarilho sertanejo. B
endito o velório
que fez cessar sua dor,
chicoteada pelo simplório realejo.

Abençoadas as lágrimas
que lavam seu sangue,
bebida do infinito.

Aproveite!
Se banhe no próprio sofrimento,
nas correntes do erudito
Drena o mangue lodoso
que putrefaz seu corpo.

Suave lamento,
esquece o rito
E desperta o sentimento.

Afinal,
Não existe momento.

(2010)

O que rima com dor?


O que rima com dor?
Tudo, menos Amor.
Um suspiro incolor
Da tua pele o dissabor
Teu hálito carregado de torpor
Aquele frenético calor.

Anda, me sufoca de ardor!
Amor, por favor,
Me enche de horror,
Arranca meu frescor
Me violenta com primor
Anjo pecador

(2010)

Cristalização


Fuja! Para que saudade?
Larga teu florim,
já vais tarde
Brasa de jasmim,
Afasta-te da trindade

Venha, ó tempo, cante seus fados
seus apertos e agarros
Jure seus sonhos alados,
seu sangue almiscarado.
Sinta o arame farpado!


(2010)

Ode ao Canário

Ordinário, ordinário
o canto do canário;
Falta natureza
nessa ave do vigário

Que falsa realeza!
pedaço de canário;
Cheio de avareza,
devasso missionário...

(2010)

Cantiga do Açoite


Não corte
das vendas
a morte
Nem das tendas
a sorte

Afago e açoite
Sopre os santos encantos
e todos os prantos

Venha, besta com porte
mostre que é forte
Mate o rei e
dê o bote.

(2010)

O bolero das borboletas

O bolero das borboletas
soava ao intenso do violeta;
Sangrava os gritos dos condenados.

Melodia frenética
que soltava rabiscos pelo ar
À procura de almas dissimuladas
para nelas pousar.

Musas das vilanias,
mensageiras da vitória…
Perdidas em si
famintas por glória

(2010)

Are you gonna give my flamingo back?

Are you gonna give my flamingo back?
I hate it 'cuz of its long pink neck
Be careful it may fade away with the heat
If you put it in a club
He'll surely follow the beat

Feed him with human meat
Or he might get angry
and switch

Please, he is a stone in my heart
and now it's gone
You left me apart
Greenly alone

But now, just a clue
It's not an animal u've got
It's my soul and some pot.

(2009)

a força da mordida era de adeus

Fascinantes as máscaras que escondiam as cartas da queda e da redenção. Morta a fênix, a desilusão desistiu de desistir; a força da mordida era de adeus. O breu era um convite ao abismo, o lobo voraz pelo ruir das almas circenses. Teria o minotauro se perdido no próprio labirinto? Teriam as cores se negado a florescer? Foi o tempo pela ambição vendado e profetizada estava, assim, a derrubada da era de sangue e perdição.

(2009)

Salvação

Platinados fios encobriam sua face pálida e enrubescida. Refletidos mar e céu em seu terno olhar. A sua cruz é um brinquedo caro. Suas mãos colhem as dores alheias. Seus pecados disfarçam sua brandura juvenil. Orgulho e medo. E brilho esse são coisas e traços que não conseguimos entender. Olhos fadas tão belas e inebriadas. Olhos espelhos que vivenciam o seu maior legado. Cravados marfins em seu sorriso, gesticula o apego e a paz. Atadas mãos, pernas, distorcidas, entroncadas, belas, macias. Perdidas. Encontradas. Amor personificado.

(2009)

Anestesia

Seu toque bruto me arrancou de um sonho doce, sua pele chocava-se contra a minha, transportando-me para devaneios ainda mais distantes. Entregar-lhe-ia não só meu corpo maculado, mas também minha alma pecaminosa. As pernas enroscavam-se graciosamente. Um ar denso e profano tomou conta do quarto de hotel, era aquela respiração ofegante que ritmava nossos movimentos, anestesiando minha moral.

(2009)

Last Breath

As lágrimas se arrastavam em sua pele pálida. Nada lhe devolveria o pouco de esperança que restava em sua alma atormentada. Incapaz de expressar qualquer resquício de vida, dela desistiu. A lâmina da gilete estava especialmente brilhante naquele dia. Parecia que a convidava para a paz que tanto buscava. Talvez desistisse de procurar o que estava sempre faltando em suas primaveras. A sensação de que sua vida nunca estaria completa. E, realmente, não estava. As doses de uísque, as cigarrilhas, os remédios para dormir, nada. Nada podia preencher a pureza de um amor verdadeiro. Aquele que só habita os sonhos dos mais loucos. Esse que desatina e aquieta. Gelado como uma brasa. Avassalador como uma manhã amena de verão. Tudo aquilo que ela jamais iria alcançar. Logo o bordô do sangue coloriu os azulejos brancos do banheiro.

(2009)

Cabarett Love


Um olhar desafiador pousou sobre minha pele. Não deixei que me subjugasse e, em meio à fumaça daquele bar, caminhei em sua direção. Faiscantes e verdes, me convidavam para um mundo novo. Maldito cabaré, fazia com que tudo parecesse mais doce e deslumbrante. Uma cinta-liga me aproximou das curvas de uma bela perna. Minhas mãos, já insanas e perdidas em pecado capital, repousavam sobre a ardilosa senhora e ajudavam-na a livrar-se das incômodas meias de seda. Senti seus dentes em meu pescoço e deslizei meus braços ao lânguido cálice de conhaque. Coloquei meu chapéu sobre seus cabelos platinados e puxei-a para um beijo. Negou, sussurrando que não era desse tipo de moça. Ofereceu-me mais conhaque e, de pronto, aceitei. Ela tomou o último gole de minha taça e encarou-me profundamente. Nada precisava ser dito.

(2009)

Surrealist Lust

A insana luxúria em penas negras converte o ardor de seu toque. Nada resta, senão corpos, da perdição objetos, amontoados pelos corredores do palácio de Anúbis. Carnes em busca de revelação. Salvação. Libertar-se da sede animal que possui e domina suas almas. Mas são rubros os lábios de veneno corrente, famintos por agonizantes vítimas de sua ambição. Suaves as mãos e braços que enforcam com calor de serpente as indefesas presas da Fortuna. Afiadas as unhas que arrancam carne e sangue de carcaças perdidas. Irresistível e humano o aroma que exala das pontas dos dedos. Nada faz cessar a sede, ela sempre continua; embebida no último néctar, gera, empeçonhada, vida. Vida morta, vida desperdiçada. De traços desfigurados. Figura deformada. Morte.

(2009)