segunda-feira, 23 de maio de 2011

Indiferença homicida


Demente megera, corre imprudente;
gira, delira e espera.
O sangue ferve, ela não vê saída
e cede ao desejo latente
de acabar com a própria vida.

As últimas palavras: a grande lira,
Embora a entoe, não mais respira.

Canta mentiras sinceras,
agoniza e mostra os dentes
Tem no corpo chagas e crateras:
tanto a carne quanto a alma estão doentes.

Percebe, mas disfarça, arrependida,
e finge um sorriso de serpente.

Com a boca cravejada de safiras,
a primavera ela espera paciente
E então as lapida,
realizando um sonho indecente:
o de ser permanente a dor de sua mordida
e ter na morte a maior cliente.

(2010).

Última elegia

Foram-se as ninfas, as musas
Sobraram as palavras, rotas e sujas
Outrora vieste com zelo, agora me abusas
Maldita a tua cruel mania:
Rouba-me o ar e a poesia.

Sufoco-me nesse sarapatel, infame agonia
Por um verso puro até me mataria
Mas nada vem a mim dos céus
E perco-me imundo nesse mundaréu
sem um momento sequer de epifania.
(2010).

Labirinto do agora


Meu coração anda faminto,
mas és tu que me devoras...
Pela força do instinto,
da minha culpa te enamoras.
É triste o fim que eu pressinto.
Gotejam quentes as horas,
enquanto digo que te amo e
dissimuladamente minto,
Ainda te iludem as esperanças de melhora?

Esqueça!
Não tenho moral, eu admito...
Acreditas em mim, minha senhora?
Vai, voa longe, até o infinito,
até o último borrão inaudito de aurora...
O teu destino paira lá, manuscrito.
Agarra-o e corta teu coração fora.

(2010).

Intensa


Minha alma caminha suspensa
Longe da vida, da saudade,
Não que ela me pertença,
É fruto da vontade
Daquela que já morreu
Infectada pela calamidade
De amar aquilo que já não é mais seu
Perdeu-se, por isso, na descrença
Castigada pelo ódio e pela ofensa
Vencida pela triste maldade
Por tudo que nunca aconteceu
Não me entregarei jamais ao Amor: essa infeliz doença
Nunca acometerá este coração que já apodreceu.

(2010).

Vingança


Chega o baile da morte
E começa a matança
Quando me dou por mim,
Já é a última dança
Me leve, por fim,
Já não sou mais criança.
Sofro sem o seu ódio de marfim
Me perturbando a lembrança.

(2010).

Temeridade


Falta em ti humanidade...
Será teu amor um arpão
e teu ódio saudade?
Talvez seja tudo (des)ilusão
e teu carinho, caridade!
E teus beijos, o que são?
Gritos mudos de vontade?

(2010).

Mensagem à poesia


Inconsequente e louca,
Ela vem e me beija na boca,
Com a carne quente e a cabeça oca
Pisa no meu peito, mas a tortura é pouca.

Corre e para; gira e respira
Ela me tem na mira
Se descontrola e atira,
Mas larga a arma e então suspira

Maluca,
Me encara com os dois olhos na nuca
Aperta e machuca

Então ela para,
Se lembra da labuta
E vira mariposa, vira prostituta
Desmaia em meus braços
E finge que é astuta.

Acorda! Ainda resta libido
Acorda o profano, o pensamento indevido
Me sufoca a alma, me mata com calma.
Tanto faz: meu coração já se foi perdido.

(2010).

Ardilosa


Caio a ti, de joelhos
Imunda e santa, cigana;
Imaculada e leviana.

Teus olhos sujos e vermelhos
Refletem o caos da vida urbana,
Do agora, do momento.
Da tua carne venenosa:
Do meu maior lamento,
Que permaneças saborosa
Até o último sacramento.

(2010).

Rosa branca e romã


Teu corpo contorcido em agonia
Exala a mais sutil e doce melodia
Vem do tinto do sangue uma luz que irradia
As pernas dormentes, os braços suicidas,
MALDITA E PROFANA MINHA FANTASIA.
A dor nos teus olhos, a vitória da apatia
De tão mórbido, o teu encanto me arrebata, me anestesia.

(2010).

Gabriel



A vida passa, mas o tempo fica
Imita e pica, dissimulado,
Ardente como cascavel
Mas fuja desse insano sarapatel:
___O tempo bestifica
___Acorrenta todos num maldito carrossel

E o arcanjo que caiu do céu
Está perdido no tempo, no espaço,
___No último mausoléu
Alimentado pelas ilusões remendadas,
___Pelos sonhos de mel,
Gozo que o destino recebe e adocica
___Enquanto pisoteia o fel

Antes da mão que crucifica,
Perceba que o tempo é infiel,
Se refugia então na morte,
___No maior laurel
Na última prosa, no ponto final
No tormento que a vida versifica,
___No demente fogaréu.

Percebe, por isso, Gabriel,
Que é melhor voltar ao céu...