quinta-feira, 31 de março de 2011

Ironia


Há algo, não sei, no seu andar
Talvez sejam os seus passos ritmados
Fortes como os de um militar
Ou então os quadris armados
Está sempre prestes a matar
Até seus dentes parecem mais afiados,
Mas não deve ser nada,
Só o Amor no meu olhar.

(2010).

Digressão confessional


Escobar, meu caro amigo,
Há em nossa afetividade
Um iminente perigo
Que, de tão intenso,
Desobedece à nossa vontade

Meu sangue, pois, congela
Pelos pecados do excesso
Calo os sinos da capela
Não tenho alma, confesso

Mas venha a mim, eterno comborço
Ama-me sincero, sem esforço
Pousa em mim teu olhar demorado, inconstante
Deita sobre minha pele lânguida teu corpo fumegante

Oh flor do céu! Oh flor cândida e pura
Para este mal não há nenhuma cura
Estou fadado aos teus braços, à morte escura
Teu toque é em mim ferida de navalha
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

(2010)

Dois anos


Do tempo, é grande a fuga
As veias da vida, a ampulheta suga
Serão as maldades muitas e mansas
É dado o bendito fim às malditas crianças.

(2010).

domingo, 27 de março de 2011

Carolina


Sê com o tempo paciente
Ele vem feroz e desatina
Mas de ti não levará o que é permanente
Tua jovialidade de menina

Verás então porque o tempo é tão fremente
Inveja, enraivecido, tua beleza assassina
Que aniquila, das almas, irreverente
A latente e doce toxina

É, contudo, teu andar de bailarina
que transforma a dor de um coração doente
no mais tenro ingrediente
da tua sede leonina.

Anuncias feliz e inconsequente,
Com teus olhos de Capitolina,
A ressaca do mar e a enchente,
Olhar que afoga e ilumina

Encaras o céu no mar e fazes, repentina
Da lua teu pingente
Descerá, hoje, do céu, uma estrela peregrina
Para entregar-te o presente

Carolina,
Que seja eternamente
Suspiro adolescente
Sorriso que fascina.

(2010).

Efemeridade


As gotas da morte
pingam na carne
como choro de vela
um suspiro cortante
que queima e espera

O uivar da não existência
um vazio entediado, constante
desesperado por sua decadência
seu calor gelado de amante.

(2010).

Por que te preocupas?


Arranca-me da dor um suspiro,
mas do ódio eu não esqueço
Desatinado, na cama, reviro,
pois sei que nada de bem eu mereço

Então, por que te preocupas?

Tua febre desvairada já te ocupas
De nada da sorte tenho eu culpa
Devo ser, seria eu alucinação febril,
demente e infantil da tua mente
calada, carente? Desejo inconsciente?
Pecado ardente, servil.

Profecia sanguinária de uma cigana vidente,
Que me encara pelas mãos e ri contente
Arrancando da minha alma pensamentos sãos e decadentes.

Afinal, por que te preocupas?
Eu sou o mal
E serei contigo inconsequente.

(2010).

Sacristia


Rezo, mas apago o cigarro na cruz
O perfume amargo da madeira me seduz
Creio, mas agarro o profano, o pecado
que sacia minha sede de alcaçuz

Não há fé verdadeira; o sagrado envenena
A decadência tanto putrefaz que reluz

Desgraça derradeira
Deus está morto; não existe Jesus
Não encontrarei jamais a maldita luz.

(2010).

Tremor


Ah, já escorreu de mim todo o amor
Foram muitas e cálidas as flechadas
Que mutilaram meu corpo pecador
Não peço, contudo, pena de Nosso Senhor
Peço somente uma ultima amada
Que, mesmo pálida e maculada,
Cesse em mim meu divino impulso matador.

(2010).

Languidez


Sua pele alva envolve e arrebata
Sorriso de anis, de tão doce mata
Esfinge meretriz, sua sede é ingrata
Devora o sol e o cassis,
Arranca sangue da chibata.

(2010).

Clamor


Amores e vidas, sonhos tantos
ilusões que fingem dissimuladas
os mais terríveis encantos
as vendas, dores aladas envoltas em prantos
mantos da morte, do corte da vida,
dos malditos (e) santos;
Ode aos poetas mortos,
aos filhos do Amor a quem canto.

(2010).

Ah cigana,


Minhas mãos tem sede de tua pele imunda
das tuas carnes fartas,
da bênção fecunda.
Meu sangue tem ganas da tua alma
de uma forma estranha
disforme, sem calma.

(2010).

quinta-feira, 17 de março de 2011

Calvário


Sou do ódio devoto, filho reacionário
dos pecados de Andaluz,
meu maldito relicário.
Algoz do sangue da cruz
no meu caminho sanguinário
A gangrena me engole e me seduz
Pois sou da morte partidário.

(2010).

Isabella,


O tempo te castiga, te flagela
Te envolve na mais frenética tarantela
A maturidade, pois, arde como choro de vela

Mas, mesmo assim, permaneces nas estonteantes primaveras
Guardada na memória dos deuses como doce aquarela
Alcançarás hoje tudo o que um dia quiseras,
Alegria dissonante, felicidade nada singela
Verás, então a vida mais bela
cativa da dor, sairás de tua cela.

Foste tu feita com cautela,
Tornando-se tão primorosa criatura.
Escultura letal com alma de donzela,
Envolta pela mais rude ternura.

Não faças do tempo uma querela
Continuarás imaculada, como que obra de capela.

(2010).

Kairos


O tempo não funciona mais
Quebrada a roda de tear
pela fuga das Graças
A festa das traças
de futuro se alimenta
nos tapetes do Destino

Mas grita mudo o desespero aos mortais
o anúncio da tormenta
e o dilúvio do desatino:
As profecias serão fatais.

(2010).

Melodia


Estendo minha mão à Morte
Convido-a para a última dança
Não me encara, como uma cortesã
E leva a infantil criança

Perco-me no baile sem vida,
sem morte,
sem sorte de não viver
sem vontade de não poder
unir vida e morte
numa belicosa temperança

Ah, mas meu sangue ainda corre,
a Morte ainda morre
e escorre o pequeno sem esperança
fugindo da vida
com o pescoço tomado por um apertado garrote.

(2010).

Condenação


O Amor brinca comigo,
me engana, diz que é amigo
Sempre me castiga,
acha que eu o instigo;
Mesmo assim me arrebata, suspiro caído
E ainda rio como um louco,
Será o cupido?
Acontece que o Amor me deixa deveras distraído
Por isso me separei do tempo, larguei-o perdido.

(2010)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Contagem

Chove sangue lá fora
Não há riso que melhora
sua triste sina
Muito embora
A tormenta caia mais seca
No seu coração
Que então aflora
Deslocado, imprevisível,
perdido no tempo, sem hora


Chora o céu mar afora.


(2010)

Escravidão


O frio que sinto
É a ausência do teu calor
Mas eu nego, escondo e minto
O amor é uma flechada de pavor
Que congela das minhas veias o sangue tinto
Que já não é mais meu, está em penhor
O resto de meu corpo suplica for fogo
Percebo que nunca fui de mim senhor
Sempre acorrentado aos grilhões
E vontades violentas do teu profano torpor

(2010)

Venda


Um brilho violado dos teus olhos emana
Me confunde
Contorce meu sangue
Me acalma
E distorce minh’alma profana

Me perturba se estás presente
mas tua ausência é dor mais latente
deixa meus olhos vidrados
à tua procura
e o coração duro, dormente
como um eremita a esmo
numa inexistência obscura
que perdido e inválido
nada faz: só espera a tortura

Tua perfeição é a ilusão que me sustenta
A sede por tua peçonha
é a loucura que me alimenta
A sanidade, pois, já não mais me atormenta.

(2010)

Destruição

Não sei se estranho
a maldade
que degola a pequena
ou a saudade
que minh’alma gangrena
Não sei.

Não sei como com a morte barganho
Para que me dispa de vida e tristeza
Ou que me rompa as carnes
numa triste proeza
Não sei.

Só peço, por fim, que ponha fim à minha vida
E aos cantos escuros donde brota a beleza.


(2010)