sexta-feira, 15 de abril de 2011

Maldição


Já tenho os pregos, falta o martelo
Não será necessário nenhum feitiço,
Pois serás enfim meu amargo flagelo

E o desespero que te fez mais submisso
Alimenta a dor que te torna mais belo

Finalmente, tua vida então eu desperdiço
Mas haverá, entre nós, o sangue como elo
Será a morte a profecia que hoje eu selo.

(2010).

Mentira


Minha pele aproxima-se da tua por instinto
Talvez meu corpo esteja de calor faminto
Porque, em verdade, por ti nada sinto
Mesmo assim, tudo faria por um trago do teu absinto
Mas, se digo que te amo, então minto.

(2010).

Indecisão


O que há do outro lado do espelho?
Não sei.
Por isso mergulho no vazio no vermelho
Um véu sangrento que me enche de carinho
Um calor afiado que queima como espinho
Uma fuga delirante que foge comigo
Das correntes do tédio e da insensatez do destino
Intermédio dos meus passos, reaviva o que persigo
O remédio contra o tempo e o prazer paulatino
Diversão de libertino que perece sobre a alma
Apodrece a moral, alucina e acalma,
Perfura a carne numa agonia lancinante
Que esconde em si um sorriso de amante.


(2010).

Tentação


Teu corpo muito me custa,
Mas somente teu sangue me satisfaz
Teu olhar afiado, tua sede voraz
A dor que exala da tua carne robusta
As lembranças decadentes que teu ventre traz
E os grotescos espetáculos que nele se faz
Augusta, Augusta, Augusta,
Ainda sinto teu perfume de aguarrás.

(2010).

Verbete


Gosto anil o que perfuma o clarinete
bala de fuzil, amarga fobia do cadete,
refém da morte, vítima, banquete
Entoa, estrangulado, a sinfonia do porrete.

(2010).

Metalinguagem


A rima enche-me de agonia
De ser poeta, arrasta a fantasia
Crime contra as letras, profana covardia.

Ode aos filhos dos ventos
Súplicas à letargia
Fogem da ira os intentos
Intentos cruéis de morte à poesia.

(2010).

Vertigem


Aqueles rios secos encharcam
sua pele curtida
Filha amarga do destino,
Pobre velha sofrida

A boca seca,
As mãos calejadas, doloridas
Sinais que confessam
Suas rezas sussurradas e tremidas
ajoelhadas ao badalar dos sinos
Desesperadas,
desmedidas.

(2010).

Orpheu


Ser moderno é ser plural;
pintar sobre as regras,
se libertar do igual.
Bater e espancar a moral.

Mas, para se valer do choque,
entoa-se a poética tradicional
Entrarão, pois, os modernistas
em sangrento luto matrimonial.

(2010).

Saudade


O que é modernidade?
Nada, nada que não ilusão,
pois o homem é, na verdade,
um animal, seduzido pela tentação
de inventar a humanidade
na ciranda da civilização.

(2010).

Dialética


Esta é a rua por que passo
Mas, por que passo?
Passo porque fujo.
Fujo porque preciso.
Por quê?
Não sei.

(2010).