
Quero paz no meu velório:
aquilo que não tive em vida;
um fim cinzento, e talvez simplório
uma pedra vil sobre a existência perdida.
A vida – e o sangue – em minhas carnes esvaída
mancha de rubro vermelho o céu, o anil
minh’alma oscila na última despedida
e meu corpo gelado arde febril.
Eu, que tive em vida em rancor compulsório,
em morte agonizo, angustiado e sem saída.
Não mais respiro, asfixiado pela moral adormecida,
pois já me era certo o inferno ou o purgatório.
Agradeço pelo piedoso gesto notório:
Dispensaram-me de outro fogo: o do crematório
e me deram fim ainda mais inglório
a degradante eternidade e a constante falta de vontade.
Ah! Como o fim é ilusório!
A minha vida de pecados, profana e proibida,
é agora devorada pelos vermes e corrompida;
Anunciam as traças sem grande dom oratório,
o alívio final da dor interrompida.
(2010).
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